terça-feira, 29 de maio de 2012

Resenha do livro ‘’Aquele estranho colega, o meu pai’’

O livro ‘’Aquele estranho colega, o meu pai’’ do autor Moacyr Scliar, da Editora Atual, é um livro diferente de muitos outros, pois ele mostra a realidade de alguns casos parecidos ultimamente no mundo em que vivemos.

A história se inicia em uma pequena cidade onde o pai de Pedro é um vereador corrupto, após sofrer muitas acusações a mãe de Pedro, Marlene, decide leva-lo para outro estado para começar uma nova vida. A contra gosto, Pedro o acompanha, deixando para trás amigos e a namorada. No início eles não se deram muito bem mais aos poucos foram de adaptando melhor através da convivência. De um lado o pai, arrependido querendo mudar, e do outro, Pedro que reconhece. Ao longo de brigas e de confrontos eles acabam se dando bem. No final tudo se encaixa e o seu pai deixa uma grande lição sobre a arte de viver.

O livro é muito bom e foi tão bem feito que a história até parece ser um caso de fatos reais entre pais e jovens de hoje em dia. Indico este livro para pessoas de todas as idades e para quem gosta de algo real, pois não há presença de ficção e nem há casos extraordinários como em muitos outros livros.

No final o livro ganha um tom otimista, pai e filho se reconcilia e passam a se conhecer melhor, o vereador corrupto de antes virou agora um homem arrependido que busca recuperar sua autoestima e seus sonhos de juventude.

Élyton Torres (Aluno do 8°B do Colégio Luz Pequeno Príncipe) 

terça-feira, 22 de maio de 2012

Crônica-comentário

A crônica-comentário é um texto cujo foco principal é a interpretação do autor sobre um determinado assunto, num ponto de vista quase jornalístico. Predominam as impressões críticas, com ironia, sarcasmo ou humor.

Veja abaixo um exemplo de crônica-comentário:

De como não ler um poema

Há tempos me perguntaram umas menininhas, numa dessas pesquisas, quantos diminutivos eu empregara no meu livro A rua dos Cataventos. Espantadíssimo, disse-lhes que não sabia. Nem tentaria saber, porque poderiam escapar-me alguns na contagem. Que essas estatísticas, aliás, só poderiam ser feitas eficientemente com o auxilio de robôs. Não sei se as menininhas sabiam ao certo o que era um robô. Mas a professora delas, que mandara fazer as perguntas, devia ser um deles.
E mal sabia eu, então, que estava dando um testemunho sobre o estruturalismo o qual só depois vim a conhecer pelos seus produtos em jornais e revistas. Mas continuo achando que um poema (um verdadeiro poema, quero dizer), sendo algo dramaticamente emocional não deveria ser entregue à consideração de robôs, que, como todos sabem, são inumanos. Um robô, quando muito, poderá fazer uma meticulosa autópsia — caso fosse possível autopsiar uma coisa tão viva como é a poesia.
Em todo caso, os estruturalistas não deixam de ter o seu quê de humano.. -
Nas suas pacientes, afanosas, exaustivas furungações, são exatamente como certas crianças que acabam estripando um boneco para ver onde está a musiquinha.

(Mário Quintana)

Exemplo de CRONICA METAFÍSICA

Mundo e espetáculo

Todo ser moral é um ser racional, e é irracional contemplar passivamente uma injustiça que esteja ocorrendo e possa ser evitada. Em tais casos é preciso intervir, e a única coisa que impede um ser racional de intervir ante uma violência é a necessidade -- não a vontade -- de proteger-se do mais forte (como nos diz Rousseau noContrato Social 1.3). Mas a força não gera direito, e, tão logo pode, o ser racional faz o que deve, intervindo ante as injustiças.

Há circunstâncias nas quais é legítimo contemplar sem intervir. Nessas situações, típicas do teatro, as falas são colocadas entre aspas, o mundo é colocado entre parêntesis.

Ando pela rua, e logo adiante é encenada uma peça de teatro de rua. Sei que é uma peça pela entonação da voz dos atores, pelos seus movimentos corporais, pela sua maquiagem, pelos elementos cênicos, pelas armas cenográficas que empunham. Tudo isso são marcadores claros que me permitem averiguar que o ator que diz que está morrendo não precisa de ajuda, pois está apenas citando as falas do seu personagem. Esses indicadores me garantem que sou platéia de uma peça teatral, não testemunha de atos de injustiça.

Sem tais marcadores, sem algum meio de averiguar que se trata de uma peça, seria irracional comportar-se de maneira distanciada, contemplando esteticamente os atos de violência que por ventura se dessem na peça. Eis porque é típico do teatro, e da arte em geral, marcar claramente as "aspas" ou "parêntesis" que permitem ao ser racional relaxar e contemplar, ao invés de entender e agir.

Não só a arte demarca cuidadosamente o domínio da contemplação, distinto do domínio da ação. Descartes, na "Primeira Meditação" e em diversos outros lugares da sua obra, deixa muito claro que o domínio da dúvida radical não é o domínio da vida, pois nesse domínio cabe agir, não distanciar-se. Nada mais distante de Descartes do que a idéia que a vida é um sonho.

Fora dessas circunstâncias onde se deixa muito claro que a contemplação é legítima, a passividade ante a visão de uma injustiça é racional e moralmente inaceitável. Se você ouve gritos, vai à janela e presencia um estupro, na ausência de coação física não há nada que justifique uma atitude contemplativa. Seria diferente se você estivesse no cinema e o estupro ocorresse na tela, e a diferença está em que a vida não é um espetáculo.

Da mesma maneira, se você compreende que a estrutura da sua sociedade é injusta, e você tem os meios de modificar essa estrutura, é irracional que você não o faça. Notar uma injustiça social e tomar uma atitude distanciada ante a mesma é irracional, pois a injustiça é um estado do mundo, não um ato de uma peça teatral. Ante o mundo um ser racional age tendo o bem, a verdade e a justiça como objetos formais da sua consideração, e ele só poderia deixar de agir dessa maneira caso estivesse ante um mero espetáculo teatral, não ante o mundo.

Cronica Narrativa...(Um pouco mais)

Tem por base uma história (às vezes, constituída só de diálogos), que pode ser narrada tanto na 1ª quanto na 3ª pessoa do singular. Por essas características, a crônica narrativa se aproxima do conto (por vezes até confundida com ele). É uma crônica comprometida com fatos do cotidiano, isto é, fatos banais, comuns. Não raro, a crônica narrativa explora a caracterização de seres. Quando isso acontece temos a Crônica Narrativo-Descritiva.

Na crônica "EU E BEBU NA HORA NEUTRA DA MADRUGADA", Rubem Braga desenvolve uma narrativa em 1ª pessoa em que relata um dia inteiro que ele passa na companhia do Diabo, com o qual ele cria uma certa intimidade e passa a chama-lo de Bebu, por Belzebu: "À tarde, eu já não o chamava de Belzebu, mas apenas de Bebu, e ele me chamava de Rubem." ( BRAGA,1998,p31).

"EU E BEBU NA HORA NEUTRA DA MADRUGADA", Rubem Braga


"Muitos homens, e até senhoras, já receberam a visita do Diabo,e conversaram com ele de um modo elegante e paradoxal. Centenas de escritores sem assunto inventaram uma palestra com o Diabo. Quanto a mim, o caso é diferente. Ele não entrou subitamente em meu meu quarto, não apareceu pelo buraco da fechadura, nem sob a luz vermelha do abajur. Passou um dia inteiro comigo. Descemos juntos pelo elevador, andamos pelas ruas, trabalhamos comemos juntos.


A princípio confesso que estava um pouco inquieto. Quando fui comprar cigarros, receei que ele dirigisse algum galanteio baixo à moça da tabacaria. É uma senhorinha de olhos de garapa e cabelos castanhos muito simples, que eu conheço e me cenhece, embora a gente não se cumprimente. Mas o Diabo se portou honestamente. O dia todo - era um sábado - correu sem novidade. Ele esteve ao meu lado na mesa de trabalho, no restaurante, no engraxate, no barbeiro. Eu lhe paguei o cafezinho; ele me pagou o bonde.


À tarde eu já não o chamava de Belzebu, mas apenas de Bebu, e ele me chamava de Rubem. Nossa intimidade caminhava rapidamente, mesmo sem a gente esperar. Quando um cego nos pediu esmola, dei duzentos réis. É meu hábito, sempre dou duzentos réis. Ele deu uma prata de dois mil-réis, não sei se por veneta ou porque não tinha mais miúdo. Conversamos pouco, não havia assunto.


À noite, depois do jantar fomos ao cinema... Outra vez me voltou a inquietude, que sentira pela manhã. Por coincidência, ele ficou sentado junto a duas mocinhas que eu conhecia vagamente, por serem amigas de uma prima que tenho no subúrbio. Temi que ele fosse inconveniente; eu ficaria constrangido. Vigiei-o durante a metade da fita, mas ele estava sossegado em sua cadeira; tranquilizei-me. Foi então que eu reperei que ao meu lado esquerdo sentara-se uma rapariga que me pareceu bonita. Observei-a na penumbra. A sua pele era morena, e os cabelos quase crespos. Sentia a tepidez de seu corpo. Ela acompanhava a fita com muita atenção. Lentamente, toquei o seu braço com o meu; era fácil e natural; isto sempre acontece com as pessoas que estão sentadas juntas no cinema. Mas aquela carícia banal me encheu as veias de desejo. Suavemente, deslizei a minha mão para a esquerda. Achei -a linda e tive a impressão de que ela sentia como eu estava emocionado, e que isto lhe dava prazer.

Mas neste momento, ouço um pequeno riso e reviro-me. Bebu está me olhando. Na verdade não está rindo, está sério. Mas em seus olhos há uma qualquer malícia. Envergonhei-me como uma criança. A fita acabou e não falamos do incidente. Eu fui para o jornal fazer o plantão da noite.

Só conversamos à vontade pela madrugada. A madrugada tem uma hora neutra que há muito tempo observo. É quando passo a tarde toda trabalhando, e depois ainda trabalho até a meia-noite na redação. Estou fatigado, mas não me agrada dormir. É aí que vem, não sei como, a hora neutra. Eu e Bebu ficamos diante de uma garrafa de cerveja num bar qualquer. Bebemos lentamente sem prazer e sem aborrecimento. Na minha cabeça havia uma vaga sensação de efervecência, alguma coisa morna, como um pequeno peso. Isto sempre me acontece: é a madrugada, depois de um dia de trabalheiras cacetes. Conversamos não me lembro sobre o quê. Pedimos outra cerveja. Muitas vezes pedimos outra cerveja. Houve um momento em que olhei sua cara banal, eu ar de burocrata avariado, e disse:

- Bebu, você não parece o Diabo. É apenas, como se costuma dizer, um pobre-diabo.

Ele me fitou com seus olhos escuros e disse:

Um pobre-diabo é um pobre Deus que fracassou.

Disse isto sem solenidade nenhuma, como se não tivesse feito uma frase. De repente me perguntou se eu acreditava no Bem e no Mal. Não respondi; eu não acreditava.

Mas a nossa conversa estava ficano ridícula. Desagradava-me falar sobre esses assuntos vagos e solenes. Disse-lhe isto, mas ele não deu a nemor atenção. Grunhiu apenas:

-Existem.

Depois, afrouxou o laço da gravata e falou:

Há o Bem e o Mal, mas não é como você pensa. Afinal quem é você? Em que você pensa? Com certeza naquela moça que vende cigarros, de olhos de garapa, de cabelo.