terça-feira, 12 de abril de 2016

Tipos de texto ou gêneros do discurso?

Desde que a proposta de usar os gêneros de discurso como instrumento para o ensino de língua foi veiculada pelos PCNs, abriu-se uma grande discussão teórica que teve reflexos na prática dos professores. Essa questão foi discutida em um site para professores e recebeu muitas participações, boa parte delas trazendo de forma clara as dúvidas que circulam sobre o assunto. Afinal - perguntam-se os colegas – qual a diferença entre essas duas concepções? Nas duas não se diz o tempo todo que é preciso levar diferentes tipos de texto para a sala de aula?

Procurando responder essa questão de forma mais clara, afirmamos que a diferença maior não está na atitude de aproximar sala de aula/espaços não escolares, levando diferentes textos para a sala de aula, mas sim no propósito mudar o conceito de língua que está por trás das práticas pedagógicas. Para isso, o professor precisa se perguntar: o que é língua? Língua é um código? Língua é um sistema? Língua é uma estrutura? Língua é um discurso?

Fazer-se esse questionamento é importante porque, ao longo das últimas décadas, foi possível constatar que o conceito de língua que o professor adota determina sua prática em sala de aula. Se ele pensa que língua é código, ele privilegia o ensino da ortografia. Então, escrever bem é apenas grafar corretamente as palavras. Outras vezes, ele concebe língua como sistema e então escrever bem é usar corretamente as regras gramaticais. Outras vezes, ainda, ele concebe a língua como estrutura e então escrever bem é organizar o texto de modo que ele apresente coesão e coerência entre as partes. Tudo isso é muito importante e não se pode prescindir de nenhuma dessas visões sobre a língua ao ensiná-la. O professor precisa ensinar ortografia, gramática, estrutura textual...E discurso!

 A novidade que a perspectiva de gêneros traz é a abordagem de língua como discurso, ou seja, como diálogo, conversa infinita entre pessoas ao longo da história da humanidade, seja por meio do boca a boca, seja por meio de textos escritos. Nesse caso, a língua não é objeto que se possa enquadrar num projeto de ensino. Ela é muito mais, é o fundamento da vida em sociedade. Sem a língua como discurso, não existe sociedade, não existem relações humanas. Nesse modo de ver, discurso não é um amontoado de palavras. Além das palavras serem usadas para dizer ao outro o que sentimos, pensamos, desejamos comunicar, ou seja, das palavras terem e fazerem sentido, nós as completamos com gestos e imagens para que esse sentido que desejamos dar a elas fique mais claro.

Pensemos numa só palavra, usada em diferentes gêneros do discurso com sentidos diferentes, para exemplificar. Vou usar a palavra peça. Se eu convido alguém para ir ao teatro, digo “Fulano, vamos ver a peça do Paulo Autran?” Se estou no açougue, digo “Seu João, quero uma peça de alcatra”. Se converso com o mecânico digo “Essa peça é muito cara.”. Numa aula de anatomia o professor pergunta ao aluno “Como é o nome dessa peça?”, referindo-se a uma parte do corpo humano exposta numa bancada de laboratório.

Como você pode deduzir, a pergunta “Como é o nome dessa peça?” - pode ser aplicada a qualquer uma das outras situações-exemplo, mas a resposta dada será diferente, porque o interlocutor sabe o gênero de discurso que está usando e como deve responder. O gênero é “dado” aos interlocutores pela situação de comunicação em que se encontram. Ninguém vai dizer ao professor de anatomia, por exemplo, que a peça que está sobre a mesa chama-se alcatra, ou “Sonhos de uma noite de verão”, ou barra de direção. Nenhuma dessas respostas combina com a situação de comunicação aula de anatomia. Em contrapartida, ninguém vai dizer ao mecânico que deseja uma peça de alcatra ou um “Sonho de uma noite de verão”. Em resumo, a palavra peça muda de sentido conforme a situação de comunicação em que é usada. Cada situação de comunicação corresponde a um gênero do discurso. “Conversa com mecânico” é um gênero totalmente diferente de “Convite para ir ao teatro”, porque os sentidos dessas conversas são totalmente diferentes.

Como você pode ver pelos exemplos, a língua como discurso, como diálogo infinito, acontece por meio dos gêneros de discurso usados nas situações em que nos comunicamos com outras pessoas, seja oralmente, seja por escrito. As situações em que nos comunicamos determinam os gêneros que usamos nelas. Então, os gêneros de discurso existem porque existe língua. Eles são a língua viva, como é usada no dia-a-dia, independente do fato de se tornarem objeto de ensino/aprendizagem. Ou seja, os gêneros existem porque eles são a língua, não precisamos ensiná-los para que eles existam. Mas, para que o ensino de língua fique vivo, é indispensável usá-los. Se não o fizermos, corremos o risco de transformar as aulas num monólogo, onde falamos conosco mesmo e não com os alunos. Além disso, é sempre bom lembrar que há gêneros primários, como esses diálogos do cotidiano que citamos acima, que não precisam ser ensinados na escola. Há gêneros secundários, que são mais elaborados e são criados em áreas especializadas de produção/trabalho humano que precisam ser ensinados, como os literários, os jornalísticos, etc.

Heloisa Amaral

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