segunda-feira, 23 de maio de 2016

O rumo da grafia

O acordo ortográfico e suas regras têm prazo definitivo para implementação em 1º de janeiro de 2016 e cumprem papel importante de uniformizar a escrita nos 8 países signatários, bem como de contribuir com a estratégia de projeção e divulgação global da língua portuguesa, dois objetivos importantíssimos.

Muitas críticas foram feitas sem levar em conta as vantagens internacionais de se unificar o padrão de escrita, também muito se apontou de imperfeições a serem superadas e melhorias a serem conquistadas.

Revisão da revisão

Exemplos como "Trânsito pára tal lugar / Trânsito para tal lugar" e "Tudo pára fulano / Tudo para fulano" já demonstraram que seria benéfica a volta do acento diferencial de intensidade, definidor da oposição semântica entre "pára", verbo, e "para", preposição. As frases "Veja a fôrma daquela forma / Veja a forma daquela fôrma" também indicam a importância de se voltar a definir como obrigatório o circunflexo na sílaba fechada de "fôrma", em benefício da clareza e da precisão.

As alterações feitas nas regras do hífen viram-se profusamente criticadas, como o foram critérios subjetivos adotados para manutenção de exceções, etc. Tantas foram as críticas e defesas dessas regras ortográficas, tantos os desentendimentos, que voltar ao tema pode até causar mal-estar. "Lá vem esse lero-lero de acordo outra vez!".

Não quero importunar ninguém. Só chamo sua curiosidade para confrontar algumas regras de ortografia:

- "Escreve-se [x] após as sílabas iniciais 'me' e 'en': mexer, México, enxoval, enxuto".
Pois bem. Com base nessa regra, você seria capaz de apontar a alternativa com grafia correta?
a) Enchova, mecha, mechar.
b) Enxova, mexa, mexer.
Ocorre que ambas as alternativas estão corretas. Acabou-se de se ensinar uma regra que não funciona. Frustração para aluno e professor.

- "As palavras derivadas de línguas africanas escrevem-se com x". Então, como se escreve o nome de uma dança dos quicongos?
a) Chica.
b) Xica.
Resposta: "Chica", conforme os vocabulários ortográficos de Brasil e Portugal.

A regra não vale.

- "Usa-se a letra [j] para grafar palavras de origem árabe, indígena ou africana: alforje, caçanje...".
Como preencheríamos as lacunas de: ál_ebra, al_ema, al_ibebe, al_ibeira, al_eroz, alfa_eme, alfan_e?
Todas provêm do árabe, mas, com exceção da última, todas se escrevem com [g], desviando-se da regra. Mais decepção para alunos e menos respeito pela palavra do professor.

- "Escreve-se a letra [g] nas terminações -agem, -igem, -ugem".
Diante de tal regra, então as alternativas corretas seriam:
a) viajem;
b) pajem;
c) lambujem;
d) penujem?
Uma consulta a dicionários atesta todas essas grafias como corretas, apontando a inutilidade da regra.
Decepções como essas perpassam, em número mais expressivo, a maioria das aulas de ortografia, gerando desapontamentos e forte resistência ao aprendizado da língua, o que expande o analfabetismo funcional e prejudica os índices de alfabetização.
O problema sério que precisa ser resolvido, a bem da educação, está na origem. Não faz sentido ensinar a escrever com base na origem das palavras, porque ninguém ensina essa origem. Se alguém não sabe que este ou aquele termo provém do árabe, de alguma língua indígena ou de origem africana, está impedido de saber usar x/ch, j/g, ç/ss/c. 

Porém, mesmo supondo ser possível conhecer a origem de todas as palavras, nada garante saber escrevê-las, pois, como visto, a regra não funciona. Começa, então, na alfabetização a alimentação do analfabetismo.

Sugestões

Para se alfabetizar eficientemente, sem ter de voltar ao passado, talvez seja preciso modernizar a ortografia e desatrelá-la da etimologia, que teve sua "desimportância" decretada quando se retirou o latim do ensino, quando se deixou de ensinar origem e grafia dos radicais.

Parece chegado o momento de se apresentarem soluções práticas e objetivas em favor da comunidade dos falantes de língua portuguesa.

No mundo de hoje, devido à velocidade com que as palavras chegam ao uso cotidiano (tsunâmi, Al Jazira, ashram, i'akos, estai, tags...), é impossível atrelar a escrita de uma palavra ao conhecimento obrigatório da sua origem, mas é importante que se possa saber escrever com segurança.

Que tal uma regra extinguindo o [ch] e oficializando só o [x] para representar essa fricativa? Todo mundo saberá escrever esse som, independentemente de conhecer-lhe a origem. Professores, alunos e população, felizes e seguros em ortografia.

E se a letra [g] representar apenas o fonema /guê/? "Gato", "gerra", "averiguei" ([u] pronunciado, quando escrito), "gitarra", "gota", "gula". E se apenas o [j] representar o som /jê/? "Jato", "jelo", "jeito", "jirau", "jovem", "juta". A dúvida entre [g] e [j] nunca mais existirá.

Simplificação

Há vários outros pontos passíveis de simplificação, que poderão reduzir a alfabetização a menos da metade do tempo gasto hoje, com resultados objetivos muito superiores, capazes de eliminar os traumas iniciais de leitura e escrita, tornar agradável o aprendizado da língua e duplicar, triplicar ou quadruplicar o universo atual de leitores plenamente alfabetizados, elevando a um patamar jamais alcançado o mercado livreiro, a produção intelectual e científica, com todas as consequências positivas para as sociedades de língua portuguesa, cujas economias, só por isso, serão fortalecidas.

Fonte: Revista Língua

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