segunda-feira, 23 de maio de 2016

Tira, charge e cartum: Afinal, o que são?

A regra é confundir os três, em especial os dois primeiros. Para explicar melhor do que se trata cada um deles, a discussão se volta incontornavelmente às características apresentadas por esses textos. Em outros termos: torna-se uma exposição sobre gêneros - dos quadrinhos, no caso - e suas marcas de estabilidade na forma como circulam socialmente.

Comecemos pela charge. Ela já era vista nos jornais bem antes de ser conhecida por esse nome. Pelo menos no Brasil. No século 19, os periódicos daqui costumavam chamar de caricatura essa forma de produção gráfica. Tudo - ou quase tudo - que fosse desenhado e que mexesse com temas cotidianos era rotulado assim.

Mas o DNA da charge já estava lá. A marca central dela é abordar algum tema do noticiário. Esse contato com os fatos jornalísticos é trabalhado de forma crítica e, na esmagadora maioria das vezes, com humor. Foi assim que ela ganhou espaço fixo em muitos jornais do país durante o século 20. Em alguns, em páginas até bastante nobres.

Tendo essa marca central em mente, a interação com os fatos jornalísticos, vejamos um exemplo para tentar deixar a exposição um pouco mais clara.

O cartum extrai humor de qualquer situação, sem a exigência dessa amarra factual. Por conta disso, seu entendimento tem um prazo de validade mais largo, ao contrário da charge.

Recursos usados tanto na charge quanto no cartum podem ser vistos também nas tiras. Mas há um diferencial de base: o formato. O tamanho usado pelas tiras já antecipa ao leitor do que se trata aquele conteúdo, mexa ele com temas do noticiário ou não, quer tenha personagens fixos, quer não.

As tiras cômicas - há outros gêneros de tiras, não custa registrar - têm como marca central a construção de uma situação de humor com desfecho inesperado. É como ocorre nas piadas: a narrativa é construída de modo a surpreender o leitor no final. Essa quebra de expectativa é o que leva ao sentido cômico.

Recursos usados tanto na charge quanto no cartum podem ser vistos também nas tiras. Mas há um diferencial de base: o formato. O Brasil já se tornou um dos principais polos produtores de tiras do mundo. Nossas tiras cômicas não deixam a desejar às de outros países importantes no segmento, como os Estados Unidos e a Argentina. E não só nos jornais. Na internet, elas têm encontrado novos caminhos, via sites, blogs e redes sociais.

É de se concordar que há muitos casos em que a fronteira entre tiras e, principalmente, charge e cartum fica bastante nebulosa. Ter clareza das marcas centrais de cada um deles pode não responder tão bem situações assim. Mas seguramente vai ajudar a dar maior propriedade à discussão.

Fonte: Revista Língua Portuguesa

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