terça-feira, 7 de junho de 2016

De olho nas citações

Fazer citações na redação não é obrigatório, mas elas podem enriquecer o texto. É na forma de citações que aparece o chamado argumento de autoridade, por meio do qual o redator incorpora ao seu discurso a opinião ou o testemunho de alguém que se destaca em determinado ramo do saber. Com isso, dá mais consistência ao ponto de vista.

A citação é um recurso intertextual e pode ser explícita ou implícita. No primeiro caso refere-se o autor, cujas palavras aparecem de forma direta ou indireta. Por exemplo:

"Segundo Bertrand Russell, a vitalidade é uma característica mais fisiológica do que mental. Para o filósofo inglês, ela 'provavelmente coexistirá com a boa saúde, mas tende a decair com a idade e chega a zero na velhice'".
Nesse trecho, a referência ao caráter fisiológico da vitalidade constitui uma citação indireta, pois corresponde às ideias mas não às palavras do autor. Já o que está entre aspas representa, literalmente, o que Bertrand Russell disse; é um exemplo de citação direta.

Na intertextualidade implícita não se faz menção à fonte. A origem do fragmento incorporado ao novo texto, no entanto, pode ser facilmente identificada. É o que se vê nesta passagem: "O diretor disse que não puniria a todos, pois era preciso, primeiro, distinguir o joio do trigo."

A comparação entre o joio e o trigo remete à Bíblia, que é a fonte intertextual. Essa imagem é por sinal tão conhecida, que seria despropositado dizer de onde foi retirada.

Ao citar, deve-se ter cuidado para que as palavras transcritas sejam mesmo do autor e, sobretudo, para que elas se ajustem ao contexto. Erros de autoria, como o da passagem abaixo, são comuns:

"Ter amigos é sempre ter alguém para partilhar momentos de alegria ou de fraqueza. Existem falsos amigos que estão apenas na felicidade e quando as pessoas mais precisam eles somem. Há, também, os inseguros que têm maior tendência a tomar decisões por influência de uma pessoa próxima. Como dizia o filósofo alemão Goethe, 'diz-me com quem andas e dir-te-ei quem és'".

A frase com que o aluno encerra o parágrafo não é de Goethe; encontra-se, como se sabe, nas Sagradas Escrituras.

Mais graves são as citações que não se ajustam ao contexto. Em vez de ilustrar o raciocínio elas indicam confusão de conceitos, como se vê na seguinte passagem:

"Segundo Aristóteles, 'o homem é um animal social', precisa um do outro para a sua sobrevivência. Para que seja possível essa adaptação ao meio, é necessário que o homem conviva em grupo, porém esta não constitui uma tarefa fácil."

O conceito de sociabilidade não se confunde com o de adaptação ao meio. Diz respeito, sobretudo, à convivência com os outros homens.

Outro exemplo se encontra neste fragmento de uma redação sobre o relacionamento entre os casais:

"Segundo Freud, pioneiro da psicanálise, ninguém se apaixona pela razão, mas quem conseguiria manter um relacionamento sem uma comunicação favorável? Os dados do IBGE mostram aumento significativo nas taxas de divórcio. Esses índices foram acarretados pelo fato de que ninguém quer passar o resto da vida com uma pessoa insipiente."

Na primeira linha há uma ambiguidade (o aluno dá a entender que "a razão" seria objeto); pode-se desfazer a confusão usando em lugar de "pela" outro conectivo: "...ninguém se apaixona com base na razão (ou a partir da razão)".

O mais grave é o que vem depois. O estudante sugere que uma ligação amorosa determinada pela racionalidade (se é que ela existe) necessariamente favorece a comunicação entre os membros do casal. Isso nem sempre é verdade, e "o aumento das taxas de divórcio" depende sobretudo da convivência. Pouco importa a forma mais ou menos racional com que a paixão começou.

Deve-se, por fim, ter cuidado ao apresentar citações que se referem à generalidade do comportamento humano. Nem sempre elas se ajustam a situações concretas. Por exemplo:

"A humanidade se desenvolveu em tecnologia, arquitetura e leis, mas espiritualmente não houve mudança. O homem é o lobo do homem, como disse Hobbes; a espécie humana com seus instintos é a mesma em qualquer lugar no globo; o que diferencia é a punição aplicada aos criminosos, em alguns países, de outros em que o sentimento de impunidade domina e alimenta as ações criminosas, como o Brasil."

Ninguém precisa citar a frase de Hobbes numa redação sobre a impunidade com que os criminosos agem em nosso país. O conceito do filósofo, por demais abrangente, inclui os vários níveis do relacionamento entre as pessoas; trata do homem como espécie, e não apenas como vítima da precariedade de um sistema judicial.

Fonte: Revista Língua

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