quarta-feira, 1 de junho de 2016

O valor semântico das preposições

A preposição estabelece uma relação de subordinação entre dois termos. O segundo termo, ou consequente, é um substantivo, um pronome ou um verbo no infinitivo. Por exemplo: Gosto de cinema, Espero por você, Penso em viajar. Poucos atentam para o fato de que esses conectivos têm valor semântico. Embora sejam vocábulos relacionais, preservam um discreto conteúdo significativo e exigem rigor no seu emprego.

Quando "se conversa com alguém", a ideia de contato entre os interlocutores (presente no prefixo) se confirma ou reitera no uso da preposição "com", que introduz o objeto indireto (Ninguém conversa "em alguém", ou "por alguém"). O mesmo se dá com o verbo "concordar". Já em "discordar" o prefixo significa afastamento, que é um dos valores da preposição "de". Então se discorda "de alguém" ou "de alguma coisa".

Ninguém precisa saber etimologia para usar bem as preposições. Basta ficar atento à regência, ou seja, ao tipo de conectivo que os verbos transitivos indiretos "pedem" antes de seus complementos. Por vezes mais de uma preposição é possível, por vezes não "(Luta-secom ou contra alguém", por exemplo).

Alguns problemas frequentes na escolha das preposições aparecem nas passagens abaixo, retiradas de redações:
1 - "Discordo plenamente com o seu ponto de vista"
2 - "É preciso refletir em cima das razões que levam a nossa educação a ser tão ruim."
3 - "Nietzsche critica o fato de as pessoas basearem a autoestima de acordo com a imagem que os outros têm de nós."
4 - "A prova teve que ser adiada em função do alto número de candidatos."
5 - "Papai sempre deu valor ao estudo. Essa herança foi herdada por meu avô."

É inadequado, como vimos, dizer que alguém "discorda com alguém ou alguma coisa". Certamente o engano se deve à influência do verbo "concordar", cujo complemento é introduzido por essa preposição (curiosamente, ninguém diz "concordo de alguém ou algo").

Na construção "refletir em cima de", em vez de "sobre", ocorre uma tradução errônea deste último conectivo. Ele tem entre seus sentidos o de "posição superior", mas esse valor só aparece quando a preposição introduz adjunto adverbial (O livro está "sobre a mesa", ou seja, "em cima da mesa"). Não tem cabimento estendê-lo a construções com objetos indiretos.

O verbo "basear" rege complemento com a preposição "em". Assim, baseia-se a autoestima "na imagem" (e não "de acordo com a imagem") que os outros têm de nós. Semelhantemente, é inadequado trocar "em razão de" por "em função de". A primeira locução tem valor causal, por isto se ajusta melhor à frase do aluno (a prova foi adiada por causa do alto número de candidatos). A segunda, que significa "na dependência de", seria pertinente numa construção do tipo "Ele vive em função do dinheiro dos pais."

No último exemplo, o uso da preposição "por" (e não "de") sugere que o hábito do estudo se transmitiu, hereditariamente, do pai ao avô! Isso mostra que o emprego indevido das preposições não apenas infringe a norma culta. Também pode afetar a coerência. Usar corretamente esses e outros conectivos (como as conjunções e os pronomes relativos) concorre para conferir unidade ao texto. Ou, como diz Umberto Eco, para lhe dar "beleza lógica".

Fonte: Revista Língua

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